A importância da pré-escola:
o que sabemos a partir das evidências
A Educação Infantil não é apenas a primeira etapa da Educação Básica. Ela é uma das políticas públicas mais estratégicas para o desenvolvimento humano e para a redução de desigualdades no Brasil.
Nas últimas décadas, o país ampliou significativamente o acesso à pré-escola, especialmente após a obrigatoriedade para crianças de 4 e 5 anos. No entanto, ampliar acesso é apenas parte da equação. A questão central hoje não é mais se a pré-escola importa — mas como e em quais condições ela produz impacto.
ESTUDOS FEITOS
NO BRASIL
Uma revisão sistemática da literatura, realizada em 2025, identificou apenas 27 estudos feitos no Brasil com desenho capaz de medir o efeito direto da pré-escola no desenvolvimento e aprendizagem das crianças. Esse número, por si só, já revela um dado importante: ainda sabemos pouco, de forma robusta, sobre o impacto da Educação Infantil no país.
Das 40 intervenções analisadas,
apenas 5 tinham
informações sobre custos.
3 estudos
Compararam crianças que
frequentaram a pré-escola com
aquelas que não frequentaram.
24 estudos
Avaliaram intervenções realizadas
dentro do contexto da pré-escola.
Evidências na aprendizagem ao longo do Ensino Fundamental
Impactos No 2º ano
do Ensino Fundamental
Pesquisa conduzida a partir de uma amostra de 762 crianças de escolas públicas mostrou que a frequência em creches e pré-escolas de boa qualidade está associada a melhores resultados no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), do 2º ano do Ensino Fundamental.
Há efeitos positivos mesmo com o controle de variáveis como idade, escolaridade materna, renda familiar e Ideb da escola.
Há efeitos positivos mesmo com o controle de variáveis como idade, escolaridade materna, renda familiar e Ideb da escola.
Impactos No 5º ano
do Ensino Fundamental
Também há um efeito positivo da pré-escola nos índices de proficiência em Língua Portuguesa e Matemática entre os alunos do 5º ano do Ensino Fundamental no Saeb.
Esses alunos obtiveram 210 pontos em Língua Portuguesa e 222 pontos em Matemática, enquanto os alunos que não frequentaram esta etapa de ensino tiveram 203 e 215 pontos, respectivamente. Diferenças de 7 a 10 pontos correspondem a deslocamentos relevantes no nível de proficiência.
O efeito estimado é maior entre o grupo de 10% de crianças com maior desempenho na avaliação.
Esses alunos obtiveram 210 pontos em Língua Portuguesa e 222 pontos em Matemática, enquanto os alunos que não frequentaram esta etapa de ensino tiveram 203 e 215 pontos, respectivamente. Diferenças de 7 a 10 pontos correspondem a deslocamentos relevantes no nível de proficiência.
O efeito estimado é maior entre o grupo de 10% de crianças com maior desempenho na avaliação.
Fonte:
Fonte: REYNA, Edi Flores; SILVA, Maria Micheliana da Costa; LIRIO, Viviani Silva. Novas evidências da relação entre o acesso à pré-escola e o desempenho escolar para o Brasil. Pesquisa e Planejamento Econômico, Brasília, v. 54, n. 1, abr. 2024. Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br/server/api/core/bitstreams/cd109a49-d333-44d0-aa65-495c35246bd2/content
Impactos que transcendem a aprendizagem e a esfera cognitiva
As evidências vão além do desenvolvimento cognitivo. Segundo o estudo Como investir na Primeira Infância (Banco Mundial, 2010), a Educação Infantil traz outros benefícios, como:
Melhoria
da saúde
física e mental, reduzindo a dependência
do sistema de saúde.
Redução de envolvimento em comportamentos de alto risco, como uso de drogas, dependência química e atividades criminosas ou violentas.
ESTUDOS FEITOS NA
AMÉRICA LATINA
O estudo The Promise of Early Childhood Development in Latin America and the Caribbean (2011), conduzido por pesquisadores do Banco Mundial, aponta evidências consistentes dos benefícios da frequência à pré-escola, com base em análises realizadas com crianças no Uruguai e na Argentina.
Na Argentina
A frequência à pré-escola está associada a ganhos significativos em Linguagem e Matemática no 3º ano do Ensino fundamental, medidos por testes padronizados.
Os efeitos são maiores para crianças de contextos socioeconômicos mais vulneráveis, chegando a ser o dobro em comparação a crianças de contextos mais favorecidos.
Os efeitos são maiores para crianças de contextos socioeconômicos mais vulneráveis, chegando a ser o dobro em comparação a crianças de contextos mais favorecidos.
No Uruguai
O estudo mostra que a frequência à pré-escola aumenta a probabilidade de permanência no sistema educacional.
Aos 7 anos, a diferença nas taxas de matrícula entre crianças que frequentaram a pré-escola era de 3 pontos percentuais; aos 15 anos, essa diferença variava entre 20 e 28 pontos percentuais.
Efeitos são maiores para crianças com mães menos escolarizadas, para aquelas que viviam fora da capital e para meninos.
Aos 7 anos, a diferença nas taxas de matrícula entre crianças que frequentaram a pré-escola era de 3 pontos percentuais; aos 15 anos, essa diferença variava entre 20 e 28 pontos percentuais.
Efeitos são maiores para crianças com mães menos escolarizadas, para aquelas que viviam fora da capital e para meninos.
ESTUDOS EM PAÍSES
DESENVOLVIDOS
Pesquisas longitudinais realizadas nos Estados Unidos, como as conduzidas por James Heckman e o Carolina Abecedarian Project, acompanharam por décadas crianças que participaram de programas educacionais na primeira infância. Os resultados indicam efeitos positivos em suas trajetórias educacionais, sociais e econômicas, além de elevados retornos para a sociedade.
Nos anos 1960, o pesquisador James Heckman e sua equipe começaram a acompanhar 123 crianças de 3 e 4 anos, de baixa renda, que frequentaram um programa educacional de alta qualidade nos Estados Unidos. Elas foram monitoradas por mais de 50 anos.
Heckman demonstrou que os retornos sociais de investir na Educação Infantil são altamente positivos,
de 7% a 10%
superiores ao da maioria das políticas educacionais realizadas em etapas posteriores.
O estudo Perry Preschool Program tornou-se mundialmente conhecido e referenciado por ter demonstrado impactos duradouros da Educação Infantil, que chegam à vida adulta dos participantes e até em seus filhos.
Outra pesquisa aponta efeitos de longo prazo
Quais resultados aparecem em ambos os estudos?
O conjunto de evidências mostra que
Frequentar a pré-
escola faz diferença.
Há impactos consistentes na aprendizagem, inclusive ao longo do Ensino Fundamental, na saúde e nas trajetórias educacionais posteriores.
Qualidade importa mais do que acesso isoladamente.
Os efeitos mais robustos estão associados a experiências educativas estruturadas, intencionais e sustentadas por práticas pedagógicas qualificadas.
Ainda sabemos pouco.
A produção científica nacional sobre o impacto da Educação Infantil é limitada em número e focada predominantemente em linguagem. Há lacunas importantes na mensuração de habilidades socioemocionais, no acompanhamento de médio e longo prazo e na análise de custo-efetividade das intervenções.
Esses achados apontam para um duplo desafio:
Garantir o direito ao acesso com equidade.
Assegurar a
qualidade das práticas pedagógicas, das interações com as crianças e das oportunidades de aprendizagem que elas têm.
Evidências internacionais indicam que os retornos sociais do investimento em educação infantil superam os das intervenções realizadas em etapas posteriores. À luz desse diagnóstico, o debate brasileiro precisa deslocar o foco da mera expansão de vagas para a consolidação da qualidade, o que implica ampliar e aprimorar continuamente os instrumentos de avaliação e de acompanhamento do desenvolvimento infantil, em uma perspectiva integral.