Realidade da pré-escola no Brasil

A Educação Infantil como um todo e a pré-escola em particular desempenham um papel fundamental no desenvolvimento humano. As experiências, interações e brincadeiras vivenciadas pelas crianças nessa etapa promovem desenvolvimento cognitivo, emocional e social, essencial tanto para o presente quanto para o futuro delas.

No Brasil, a partir dos 4 anos, todas as crianças precisam estar matriculadas em unidades de Educação Infantil. É um direito delas, uma responsabilidade de suas famílias e um dever do Estado, estabelecido pela Emenda Constitucional nº 59, de 2009, que ampliou a obrigatoriedade da Educação Básica para a faixa etária de 4 a 17 anos, e regulamentado pela Lei nº 12.796, de 4 de abril de 2013, que incorporou essa determinação à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), consolidando a pré-escola como etapa obrigatória.

Entretanto, apesar desse marco legal, o País ainda tem 5,4% das crianças de 4 a 5 anos fora do sistema, o que corresponde a cerca de 329 mil.

(IBGE/Pnad Contínua 2024)

O acesso evoluiu nos últimos anos, mas ainda não está universalizado
A proporção de crianças de 4 a 5 anos matriculadas na Educação Infantil apresentou crescimento consistente na última década, com registro de queda apenas em 2022, no período pós-pandemia.

Essa expansão está associada, entre outros fatores, à mudança no marco legal que tornou a pré-escola obrigatória a partir de 2013, impulsionando a ampliação da oferta. No entanto, apesar dos avanços importantes, o acesso ainda não é plenamente garantido a todas as crianças nessa faixa etária.

Porcentagem de crianças de 4 a 5 anos que frequentam a educação infantil (2012 – 2024)

Fonte:
IBGE/Pnad Contínua 2013-2015 / Pnad Contínua (módulo Educação) 2016-2024.

Educação em período integral

Entre as crianças que estão na pré-
escola, uma minoria frequenta a
educação em período integral:

18%

Nos anos finais do ensino fundamental são:

20%

e no Ensino Médio:

25%

Fonte:
Censo Escolar 2025

Por que educação em tempo integral importa?

A ampliação da jornada na Educação Infantil é reconhecida nas políticas públicas nacionais como uma estratégia importante para a garantia dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento integral das crianças desde os primeiros anos de vida.

O Compromisso Nacional pela Qualidade e Equidade na Educação Infantil (Conaquei) orienta que estados e municípios priorizem a criação de vagas em tempo integral como forma de assegurar o direito à educação e ao desenvolvimento pleno, considerando aspectos territoriais, socioeconômicos e de diversidade.

Para além de ampliar o tempo de presença das crianças na escola, a perspectiva da educação integral na primeira infância considera que a ampliação de jornada — combinando ensino e cuidado, viabiliza que as famílias, especialmente em contextos de vulnerabilidade, consigam deixar suas crianças por mais tempo em ambiente seguro.

benefícios da educação em tempo integral

Ampliar oportunidades
de aprendizagem

Garantir cuidado
qualificado

Segurança e proteção
social no contraturno

Desigualdades no acesso

Recortes geográficos também mostram desigualdades significativas no acesso

Percentual de crianças de
4 a 5 anos na educação infantil, segundo a localidade de residência:

95,8% Zona urbana
93,5% Zona rural

Percentual de crianças de 4 a 5 anos que frequentam a Educação Infantil (2024)

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Estados com maiores índices de atendimento à pré-escola

Piauí 100%
Sergipe 97,4%
Bahia 97,3%
Tocantins 97%
Mato Grosso 96,7%

Estados com menores índices de atendimento à pré-escola

Amapá 69,8%
Acre 82%
Amazonas 84,9%
Rondônia 85,4%
Roraima 90%

Fonte:
IBGE/Pnad Contínua 2024

Existem diferenças também segundo o nível
socioeconômico (NSE) das crianças e de suas famílias

Entre as 20%
mais pobres,

93%
estão na
escola

20% mais pobres

Entre as 20%
mais ricas,

96,9%
estão na
escola

20% mais ricas

Fonte:
IBGE/Pnad Contínua 2024

Apesar de persistir, a desigualdade no acesso à pré-escola entre
os grupos de renda mais alta e mais baixa diminuiu em 2024!

Evolução da taxa de atendimento de crianças de 4 a 5 anos por quintis opostos de renda (2016-2024)

Fonte:
Pnad Contínua 2024

20% mais ricos
20% mais pobres

Mas por que tantas crianças de 4 a 5 anos ainda estão fora da escola?

Um dos principais motivos apontados por pais e responsáveis é a dificuldade de acesso, que afeta sobretudo as famílias em situação de maior vulnerabilidade.

Dificuldade de acesso à pré-escola por quintil de renda (2024)

Fonte:
IBGE/Pnad Contínua 2024

Investimentos na educação infantil

Tivemos avanços importantes nos últimos anos

Investimento público por estudante - 2011 e 2021, em R$

Entre 2011 e 2021, o investimento por criança na Educação Infantil aumentou 81% em termos reais, passando de
R$ 5.661 para
R$ 10.692,10.

Foi a etapa com o maior crescimento!

Fonte:
Inep. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/acesso-a-informacao/dados-abertos/indicadores-educacionais/indicadores-financeiros-educacionais

2011
2021

Ainda há um longo caminho a ser percorrido

Apesar dos avanços recentes - que merecem ser celebrados -, ainda há um caminho importante a ser percorrido. Na Educação Infantil as turmas precisam ser pequenas e a infraestrutura especializada. Além disso, essa etapa também carrega aspectos do cuidado, como nutrição e saúde e, em muitos lugares, apoio à família e acompanhamento da parentalidade positiva.

Nesse sentido, o contexto familiar influencia significativamente. Uma criança de família de nível socioeconômico mais alto, por exemplo, pode ser bem atendida em escola de tempo parcial, porém, responsáveis em contexto vulnerável podem ter menos tempo de dedicação exclusiva para a criança, sendo a creche em tempo integral uma forma de fortalecer a rede de apoio das famílias.

Comparação de gastos em educação - Brasil X OCDE

Investimento em Educação Infantil como % do investimento governamental total

Fonte: OCDE

investimento em Educação Infantil por criança

(em dólares americanos, ajustado pela paridade do poder de compra, valores correntes)

Fonte: OCDE

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Comparativo
Brasil
OCDE

Ainda que o montante gasto na Educação Infantil, em termos percentuais, não seja distante da média da OCDE, pelo fato do Brasil ser um país em desenvolvimento, o valor de fato investido ainda é bastante inferior

Faltam estudos sobre a temática

A produção de estudos sobre investimentos na Educação Infantil necessita ser ampliada, e não há consenso entre especialistas quanto a um patamar de investimento capaz de assegurar qualidade.

Parte da literatura indica que contextos de maior vulnerabilidade demandam níveis mais elevados de investimento, uma vez que a Educação Infantil envolve não apenas a dimensão pedagógica, mas também aspectos do cuidado, como nutrição, saúde e, em alguns casos, apoio às famílias e aos responsáveis.

Há que se considerar também que, em países em desenvolvimento — onde muitas vezes a infraestrutura básica necessária ainda não está consolidada —, o investimento por criança precisa ser maior do que em contextos nos quais essa estrutura já se encontra estabelecida.

Linha do tempo dos avanços normativos do Brasil na Educação Infantil
1988

Constituição Federal reconhece a Educação Infantil como direito da criança e dever do Estado, atribuindo aos municípios a responsabilidade prioritária por sua oferta.

1996

Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) reconhece a Educação Infantil como primeira etapa da Educação Básica e estabelece atendimento gratuito nessa etapa.

2006

Política Nacional de Educação Infantil (PNEI) fortalece a etapa com foco no desenvolvimento infantil, não no assistencialismo.

2007

FUNDEB substitui o FUNDEF e amplia o financiamento para toda a Educação Básica, incluindo a Educação Infantil.

2009

Emenda Constitucional 59 torna compulsória a matrícula de crianças a partir dos 4 anos completos.

2013

Alteração da LDB, através da lei 12.796/2013, torna a pré-escola obrigatória e estabelece diretrizes para o atendimento da Educação Infantil.

2014

O Plano Nacional de Educação (PNE) estabelece meta para a universalização da pré-escola e expansão do atendimento na creche.

2016

Marco Legal da Primeira Infância define diretrizes para o cuidado e desenvolvimento integral na Primeira Infância e estabelece direitos específicos para a faixa etária.

2019

A Educação infantil é incluída, de forma piloto, no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) para avaliação da qualidade da oferta.

2021

Alterações amostrais e nos questionários ampliam o monitoramento da educação infantil no Saeb a nível estadual, mas ainda com limitações no nível municipal.

2024

São instituídas Diretrizes Operacionais Nacionais para orientar padrões de qualidade na Educação Infantil.

2025

São lançados o Conaquei - Compromisso Nacional pela Qualidade e Equidade na Educação Infantil, com o objetivo de assessorar a formulação e o aprimoramento de políticas públicas para a Educação Infantil, e a Política Nacional Integrada para a Primeira Infância (PNIPI), que estabelece diretrizes para ações articuladas entre áreas essenciais à vida das crianças, como saúde, educação e assistência social.

Ao longo das últimas quatro décadas, o Brasil avançou de forma consistente no reconhecimento, na regulamentação e no fortalecimento da Educação Infantil como direito das crianças e dever do Estado.

Nos últimos anos, esse movimento se intensificou, com iniciativas que aprofundam o monitoramento da qualidade e promovem a articulação intersetorial, reafirmando a Educação Infantil como base essencial para a construção de uma sociedade.

Entretanto, o caminho para garantir universalização do acesso com qualidade, garantindo condições adequadas ao desenvolvimento integral das crianças - independentemente de sua localidade e situação socioeconômica de suas famílias - ainda é longo.

Vamos juntos discutir qualidade com equidade na Educação Infantil?